2.10.09

HERMENÊUTICAS SOBRE MODOS DE ANDAR



  • Tomei hoje duas cervejas com Paulinho Assunção. Lentamente e em silêncio. 
  • Poucos sabem que cheguei a Belo Horizonte com um uniforme bolchevique. 
  • Tornei-me o personagem Franz Kafka para poder usufruir da onipresença literária. Estou aqui; estarei lá. Em algures e nenhures. 
  • Conversei hoje com Murilo Rubião e aprendi a não ter complacência literária. 
  • Em Minas, encontrei rastros dos utópicos navegantes. Rastros diferentes das atuais idiotias galantes. 
  • Quando voltar a Praga, já não serei Franz Kafka. Serei aquele-que-esteve-no-sul-do-sul. 
  • Agora sei: os apressados são os sem-paisagem. 
  • Posso agora dizer: o tacanho é aquele que perdeu elasticidade no modo de pensar. 
  • Creio que a pátria de um escritor é a geometria das sinuosidades.
  • Gosto dos mineiros porque eles não têm medo das sinuosidades do pensamento. 
  • Pena que meu amigo James Joyce não tenha conhecido os declives da Avenida do Contorno.
  • Posso confessar: tenho predileções pelas belo-horizontinas que fazem oh; mas preocupo-me com as que fazem ih. 
  • Dois dias gastei na Praça 7 de Setembro em hermenêuticas sobre os modos de andar. 
  • Duas fábulas eu já escrevi em minha temporada belo-horizontina: uma, sobre a paciência; a outra, sobre a incompostura.
  • Das alegrias em Belo Horizonte, uma é chutar tampinhas pelos declives da Contorno. Em Praga, não havia esse tipo de brinquedo.
  • As mulheres em Belo Horizonte sempre beijam-me as faces. Enrubesço-me todas as vezes. Preciso escrever a Max Brod.

22.9.09

CERTAS FOBIAS DE LUZ E SOMBRA



  • Pobre autor quando tem diante de sua obra leitores em genuflexões.
  • Não entendo como ainda hoje apreciam futebol. Já em 1913, em Praga, ríamos de tais desvios cognitivos.
  • Ao se dividirem principalmente em celestes e alvinegros, os mineiros talvez possuam certas fobias de luz e sombra.
  • Amanhã, vou com o poeta Emílio Moura ver nuvens na Serra de Brumadinho. Jamais imaginei tal passeio.
  • Gosto do modo como escrevem as jornalistas de Minas. Bem melhor do que o estilo trotante dos jornalistas de Minas.
  • As mulheres em Belo Horizonte sempre beijam-me as faces. Enrubesço-me todas as vezes. Preciso escrever a Max Brod.
  • O edifício chamado Malleta parece ser o Kremlin de Belo Horizonte. Hoje estive por lá, em observações.
  • Em Belo Horizonte, tornei-me um escritor mais esperançoso. Pelo menos, com o minuto seguinte.
  • Na tarde de hoje, duas moças mostraram-me os seios na Rua Paraíba. Tenho de escrever a Max Brod.
  • Vou agora à exposição de Madame Gengelin, no alto da Afonso Pena. Ela é amiga de Picasso. Dizem.
  • Disseram-me que, ao caminhar pela Praça da Liberdade, chovem epifanias. Não sei. Nada ocorreu ainda.
  • Pude hoje conversar longamente com Murilo Rubião. Um sujeito estupendo, simpático e bem-humorado.
  • Conheci hoje uma senhora que corresponde com Freud. Belo Horizonte me surpreende.
  • Nada fiz para estar em Belo Horizonte.
  • Estou em falta com Max Brod. Desde que desembarquei em Belo Horizonte, não fui capaz de escrever uma linha para o meu amigo.



    15.9.09

    O MOVIMENTO DAS TRAVESSIAS

    • Se me perguntam em qual língua escrevo, já não duvido: escrevo em língua manuscrita. 
    • Tal um lago, as cidades também possuem certas lâminas d´água em suas superfícies. 
    • Em Praga, eu andava em curvas; em Belo Horizonte, zigue-zagueio em topografias alucinadas. 
    • As vespertinidades de um domingo. Lucas Baldus ensina-me a admirar esses momentos de Belo Horizonte. Se poeta fosse, faria uma ode. 
    • Nada fiz para estar em Belo Horizonte. Apenas deixei que os fatos, à maneira de ribeiros, confluíssem para o movimento das travessias. 
    • Será perda de tempo para um escritor gastar horas na observação de narizes? 

    9.9.09

    SOU KAFKA DE ONTEM E DE HOJE


    • Aprendo mais palavras de sabor barroco com o meu amigo Lucas Baldus. Hoje aprendi esta: usança. 
    • Pratico as lentitudes em Belo Horizonte. Cada palavra agora tarda para sair nos jatos de uma caneta-tinteiro. 
    • Há dias sou seguido na rua Outono por uma mulher azul.
    • Fui hoje ao Mercado Central de Belo Horizonte observar algumas especiarias da língua brasileira: cajus, maracujás, jatobás, pequis. 
    • Rubem Focs apresentou-me hoje Ferdinando Flauta Mágica, o errante, vagante, viajante. 
    • A travessia das épocas me faz bem. É uma certa imortalidade. Passado e futuro se enlaçam. Sou Kafka de ontem e de hoje.
    • Tenho cultivado um estranho hábito em Belo Horizonte: ir até a esquina para me encontrar comigo. 
    • João Serenus pergunta-me: "Por que, ao contrário da literatura, não me dediquei às aquarelas?".
    • Gosto do que me diz João Serenus: "Certos livros nos escrevem." 

    7.9.09

    ANDAR É UM CINEMA



    • Qual Kafka serei quando retornar a Praga? 
    • Aqui, ao sul, Gregor Samsa certamente não seria uma barata; seria um tamanduá-bandeira. 
    • O sol dos trópicos cega as minhas personagens. 
    • O privilégio: mais quilômetros sempre ao sul, posso encontrar Borges.
    • Todas as minhas frases aqui na América do Sul estão eróticas.
    • As mulheres escrevem com os olhos? 
    • Foi então que vimos o homem-que-recolhe-gotas-de-chuva-com-o-chapéu. E vimos a mulher-que-perdeu-a-sua-quarta-parte. 
    • Ia ontem à noitinha um goliardo a caminho da taverna. Levava duas línguas: uma, para uso suave; outra, para uso áspero. 
    • Vemos donas e madonas de pernas cruzadas nos largos-largos da Rua Jacuí. Andar é um cinema.
    • Seguimos pela Rua Jacuí. O menino, menino vestido de tábuas e barbantes, perguntou a Vicente Gunz o que era a poesia.
    • Era manhã de sábado: Belo Horizonte estava inteira na Rua Jacuí e um canário tinha voado das gaiolas de Francis Ponge. 
    • Leio que Ezra Pound de Souza Guelderodes, poeta, aviador e exímio na viola de gamba, afogou-se em um espelho em plena Avenida Paraná. 
    • Vou com Rubem Focs pelos declives da avenida do Contorno, e assoviamos cançonetas sem nome pela manhã dominical de Belo Horizonte.
    • Delírio com pedigree é matéria que não nos interessa; preferimos delírio vira-lata. 

    6.9.09

    AS MULHERES ESCREVEM COM OS OLHOS



    "Prezado Franz Kafka: gostaria muito que você escrevesse o prefácio (ou o epílogo) do meu novo livro, o qual deverá ser publicado em Fevereiro, pela editora Hummm. É um livro curto, são apenas doze contos, todos a respeito de olhos - olhos de mulheres. Escrevo-o há mais de seis anos, três dos quais eu passei em uma cadeirinha da Praça Sete de Setembro, anotando todos os tipos de olhos femininos que por lá passaram, desde os olhos mais comuns até aos mais exóticos. Sei que o tema não é inédito (o romancista Eliseu Pelim é autor de um razoável livro sobre olhos das mulheres após o banho), mas creio que consegui um ângulo inovador ao usar nos contos a Teoria de Brum Scott, que trata da olhografia, ou seja, a teoria de que as mulheres escrevem com os olhos." 

    5.9.09

    O SUL ME DESGOVERNA?



    • João Serenus disse-me ainda, e com ele acho que concordo: "Como pessoas, os escritores, quase sempre, são pobres que praticam a usura."
    • Os incrédulos boquiabertam beócios, mas o Kafka que estou aqui, já não é o Kafka que eu estava lá.
    • João Serenus disse-me hoje, enquanto almoçávamos na Casa dos Contos: "Pessoas não devem ser lavoura para a estupidez."
    • Eu, Franz Kafka, escrevo "sábado" no alto do caderno. E outra vez, escrevo: "sábado". Eu grito "sábado".
    • A cartomante da rua dos Guaicurus pede que não me fie no meu signo de câncer. Indica-me a estrela-guia de Touro.
    • O sul me desgoverna? Hoje escrevi dois experimentos. Inimagináveis se me encontrasse em Praga.

    4.9.09

    A LITERATURA MOVE-SE



    • Acabo de chegar à entrada do Montanhês Dancing. A noite é um clarão de flertes. Começo a me preparar para a noite das volúpias.
    • Por que não desfazer de vez esse engano? Murilo Rubião nunca me leu antes dos contos do "Ex-mágico". E o meu prazer agora é ler o Rubião.
    • Temo que não entendam a razão de minha vinda a esta cidade. Nada mais simples, se querem saber. A literatura move-se.
    • A indiferença é palha molhada. Não pega fogo.
    • Na Cantina do Lucas, Serenus mostra-me um bando de aves-de-bico-sorumbático. "São os filósofos figadais", conta-me Serenus.
    • Tudo vai devagar em Belo Horizonte: os javalis, os rinocerontes, os dromedários. Caem metáforas dos edifícios.
    • Almoço na Cantina do Lucas com o filósofo João Serenus. Será que a tarde é um convite para embriagar-me?
    • Hoje à noite Lucas Baldus prometeu-me um roteiro diferente: o Dancing Montanhês.
    • Avanço no aprendizado do português. Agora Rubem Focs ensina-me palavras picantes, as que não podem ser ditas na presença de senhoras.

    A ROTINA DOS DIAS


    • Aprendo com João Serenus e Cida La Lampe novas palavras em português. Gostei desta: caititu.
    • Venço a timidez. Farei hoje uma leitura do meu livro "América" para um alegre grupo chamado Mulheres dos Alelis.
    • Drummond disse-me que o poeta português António Ferro tocou bumbo ontem na conferência. E gritava: "Minha época sou eu."
    • Estranham que eu esteja em Belo Horizonte? Mais estranharão se lhes disser que me aclimato ao sul do sul.
    • Percebo: a mente européia, aos poucos, quer o sertão. Lá onde as cobras andam de costas e os bezerros falam poesia.
    • O virtuosismo cansa. Os que me conhecem sabem que não postulo nem postulei jamais esse princípio para a arte.
    • Tantas expressões literárias que já não compreendo. Por exemplo, esta, que escuto numa mesa de bar em Belo Horizonte: "buzzy book".
    • No bar, perguntam-me se sou parente do escritor Franz Kafka. Digo que sou o próprio. Olham-me como se eu fosse louco.
    • Bilhete que recebi hoje de um editor: "Senhor Franz Kafka, não publicamos parábolas. Teria algo erótico?"
    • Desde que cheguei a Belo Horizonte, tenho visto javalis, rinocerontes, dromedários. Sei que me alucino, mas transcrevo tais despropósitos.
    • Toquei bandolim para um grupo de recém-amigos. Mas creio que gostaram dos meus desajeitos com as cordas.
    • Por que não escrevi todos os meus livros em português? Esta é uma saborosa língua. Vejam só esta palavra: maracujá.
    • Vim com a disposição de observar o "footing". Pena. A filósofa Anabella explica-me que tal prática já não ocorre mais.
    • Este é o meu primeiro dia em Minas. E já estarei ficando barroco? O que pensarão de mim em Praga?

    3.9.09

    KAFKA E OS CACHOS DE REDONDILHAS


    Cachos de redondilhas pendiam hoje das árvores quando a manhã abriu luzeiros em Belo Horizonte. Kafka dedilhava um bandolim. E escrevia sobre as cordas os espantos da letra A, os espantos da letra B, os espantos da letra H. Um carro atravessou o ponto onde o agora ia para o ontem, onde o ontem ia para o antanho. Os cachos de rendondilhas pendiam das árvores. Eram balões, eram bolhas, eram infinitudes de perguntas. Kafka dedilhava o seu bandolim. Os amigos todos, em legião, ouvíamos esses dedilhares matinais, acabados de brotar do ovo de uma manhã qualquer. Éramos mínimos. Éramos nada. Éramos a pílula de um enigma no olho de um gato. Quem somos? Somos e éramos o que um dia chegaremos a ser.